quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vampiros também amam

   Vampiros não gostam da noite, eles a odeiam. É sua condenação, seu martírio, sua cruz. Ironico, não acham? 
   Amam a luz. Sim, vampiros amam. Alguns ficam até o limite da madrugada esperando pela aurora ansiosamente para poderem ver o brilho do sol ainda mergulhado no horizonte, e depois tentar sonhar com a ultima vez que sentiram seu poder. 
   Sendo obrigados à noite, eles tem que achar beleza no escuro, para fazer dela menos insuportável. Um vampiro que não lamenta não é um vampiro. Afinal, eles são o próprio lamento. E esse lamento, é a tal beleza da noite. 
   Uma rua enevoada, os passos tediosos de quem não tem a menor pressa, eterno inconformado era Monfred. Seu mestre não tivera paciência suficiente com sua sede por respostas e sumira no mundo há meio século atrás. Agora ele, Monfred, vagava solitário pela Viena do século XVII. 
   Ocorreu que durante uma das incontaveis noites frias da Áustria, ele se interessou - como sempre se interessara - por uma apresentação de camara no palácio real. Medroso, sim, sempre foi, porem nada lhe tirava a aristocracia que lhe corria nas veias, portanto, Sir. Monfred era bem aceito em qualquer lugar.
   Todos como sempre o cumprimentavam honrosamente, e logo lhe ofereceram um assento previlegiado. Iniciou-se o primeiro movimento da peça, allegro ma non troppo, se desenvolveu brilhantemente, o quarteto formado por um cravo, um cello, uma viola e um violino era da mais alta qualidade Austríaca. Os interpretes se concentravam ao maximo durante a execução, o que permitia aos expectadores perceber seu transe, e alguns até compartilhar deste. Durante o sombrio adaggio do segundo movivento, Monfred avista uma bela donzela. Cabelos loiros encaracolados, minuciosamente penteados para a ocasião de gala, verdes olhos penetrantes, a face rósea e seios alvos, trajava um vestido cor-de-vinho todo ornamentado, por cima um espartilho preto não menos enfeitado e luvas. Ele então inicia seu flerte, com o avanço da melodia, que fica cada vez mais pesada. A dama abre seu leque e o abana perto da face, em sinal para Monfred. Quão tolo um vampiro pode ser? Completaria um século de vida tão logo e mal havia aprendido que não se deve apaixonar por mortais! Encerrou-se o segundo movimento com um longo e alivado "finale", a dama discretamente se dirigiu para uma das incontáveis sacadas do palácio e Monfred foi logo em seguida:
   - Uma bela apresentação. 
   - De fato, cavalheiro. - A donzela o fitava sem piedade.
   - Vive nos arredores, senhorita?
   - Vivo no Palacio. 
   - Oh! - Monfred não conseguiu mascarar sua surpresa.
   Após uma breve pausa, a donzela rompe o silencio:
   - Que noite fria!
   - Você acha? Digo, ja me acostumei. Noites frias são minha prisão! - A donzela riu - Ora, não ria! - Disse Monfred contendo seu próprio riso.
   - Pele macia, labios úmidos... - Ele a acariciava o rosto com as costas da mão direita. Ela gostava,  mas de súbito retirou a face. Os anéis gélidos a haviam tocado.
   - Lindos anéis. - Disse a donzela os tocando, um a um. E os olhava com muita atenção.
   - Sim, são bem antigos também, meus bebês. - Ele fechou a mão, fazendo com que os dois ficassem de mãos dadas. - Que indelicadeza! Esqueci de perguntar-lhe o nome!
   - Laura, e o vosso, cavalheiro?
   - Monfred Von Salzburg. Encantado.
   - Sabe, Monfred. Não sei o que exatamente, mas algo em você me encantou profundamente. - Monfred era belo, de fato. Alto, cabelos longos até o peito, ruivo de olhos azuis muito claros e profundos, suas sombrancelhas davam um contorno todo especial a seu rosto delicado. Delicado demais para homens.
   - Me lisonjea a troco de que, Milady? - Monfred acariciava agora o lábio inferior de Laura, enquanto falava.
   - A troco do que quizer. - E Monfred a beijou, vigorosamente a tomou nos braços, e uma ventania fez as cortinas tamparem a visão para dentro do salão. Agora eram apenas os dois e o frio cortante dos alpes. Laura experimentou do beijo inesquecível de um vampiro, o elixir do júbilo eterno, e se extasiou rapidamente. Enquanto ele a tinha entregue, não pensava em mais nada a não ser no que fazer. Tinha fome, mas gostara daquela mortal. "O que fazer? Um ser tão doce e belo, pertence ao mundo, pertence à vida." Mesmo com esses pensamentos, Monfred continuou a seduzir Laura que por entre suspiros e gemidos, já não sabia onde eles estavam, para ela, eles haviam viajado para muito longe, além dos limites da compreensão humana. E ela estava correta. Monfred, com suas caricias a levou para outro plano, ali mesmo, numa sacada do Palacio Real, ele a fez sentir no paraíso. Até que tomou a decisão final. Desceu dos lábios de Laura para seu queixo, moveu-se lentamente para o ouvido esquerdo, e então, finalmente, o pescoço. Cravou sua presa e sugou seu cerne. Ávidamente, como nunca antes. Agora era sua vez de ir para além de sua própria compreensão. Laura tinha um gosto muito especial, algo que fez Monfred duvidar de sua humanidade. Deixou-a por fim, inconciente, e a levou para sua casa. Deitou-a em seu leito e se sentou numa poltrona a observando a noite toda. Meditou sobre o que fazer, havia encontrado finalmente alguém para passar a eternidade, ou seria ele cruel demais em dá-la o presente das trevas, e confiná-la ao escuro para todo o sempre? Contudo, era isso ou a morte...
   Monfred, por si não suportava viver na escuridão. Seu cravo sabia muito bem das histórias que lhe contava. Não achou justo dar ao menos a chance de Laura decidir seu destino, sabendo que o presente das trevas é na verdade uma condenação às trevas. Decidiu então por matar Laura e livrá-la do sofrimento eterno.
   Pobre Monfred, traído por seus instintos mais uma vez...

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